domingo, 12 de dezembro de 2010

alter ego

é engraçado, estamos perto do Natal e descubro que eu e tu já não somos a mesma pessoa .
ontem ao falar com o pai descobri que haviam muitas coisas trancadas em mim ainda, muitas coisas que depois da partida da minha mãe ainda não se tinham posto á vista, á minha vista .
"No TEMPO em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer
"


não vou faalr do meu aniversário, como faria Pessoa, vou falar do Natal e da infância .
o prédio era de pedra, o portão rugia sempre que era aberto pelos anos cansados e a ferrugem fiel, as escadas de pedra contavam muitas brincadeiras, namoros, discussões e segredos, os vasos pobres ou velhos bidões acolhiam uma ervinhas quaisqueres e em sinal de utilidade serviam também de útil corrimão aos mais velhos .
a minha avó de baixo, que o tempo e maldade levaram para parte incerta , fora do meu coração cuidou de mim desde de pequena ( esqueceu-se disso, com pesar meu ) a avó de cima que o tempo e morte levaram para parte ainda mais incerta cuidava de todos, desde de pequenos .
o meu pai cresceu ali, a minha mãe também e numa outra vida , alheia a esta eu também .

as caixas de correio enchiam-se, eram muitas, no Natal o barulho era imenso, nos ( primos queridos ), corriamos para cima e para baixo como se nada nos pudesse fazer cansar, nem por um segundo .
os doces eram preparados, a batatas ( toneladas aos meus olhos pequeninos ) eram descadas por mãos que me abraçavam e faziam tranças, as rabanadas escondidas de bocas gulosas como as nossas .
as prendas embrulhadas a pressa, com nome de casa um, a mesa posta, o barulho cada vez maior, a campainha tocava, a porta batia e mais um abraço .
eu lembro-me de como me davam atenção, de como cuidavam de mim e de toda a minha alegria naquela noite, de como admiravam o meu entusiasmo .
as conversas cruzadas, as brincadeiras, o choro dos bebés ( havia sempre mais do que um ), o cheiros de familia e cansaço, o labor e o gosto .
e por fim a meia noite, a corrida as prendas, o fogo de artifício em forma de papel de embrulho e laços por toda a parte, as caixas, os sons robóticos, as bonecas e os carrinhos e os sorrisos nas nossas caras, a partilha, o afecto ...
um dia tudo se foi, a morte levou tudo, o tempo passou e eu e ela ( criança feliz e amorosa já somos a mesma pessoa ) .

o prédio completamente abandonado, as escadas mudas, os vidros provavelmente partidos, as luzes apagadas, as paredes deixaram de respirar, as plantas murcharam, as caixas de correio estão vazias e o portão morreu no silêncio do adeus .
eu perdi-me, o melhor de mim ficou lá tras, preso por detrás do portão morto e sem o colo daquelas mulheres muito de mim se dissolveu também .

( feliz natal )

3 comentários:

  1. O Natal consegue trazer tanta nostalgia, não é?
    Também me tenho lembrado de como as coisas eram diferentes, e ando a evitar pensar como vai ser este ano sem a minha avó...

    Beijinho.

    ResponderEliminar
  2. A partida daqueles que amamos significa sempre a partida de partes de nós proprios. Os pedaços que partilhámos com essas pessoas que partiram levam-nos pedaços da alma e abalam-nos o coração.
    Ainda assim o melhor de ti nao se perde(u). Perdermos-nos é também um caminho, um caminho que implica um encontro.
    Os pedaços que te foram arrancados não são preenchidos mas, algures em ti, despolotam novos lugares onde outros pedaços (re)nasceram para que te possas dar novamente a alguem.
    Lembra-te que a partida daqueles que realmente amamos nunca é total. Afinal ficámos cá nós para representar quem nunca realmente partiu por nunca ter sido esquecido.

    ResponderEliminar
  3. Tocou-me muito este teu post.
    Um beijo grande ***

    ResponderEliminar